Dia Internacional da Rapariga, pouco a celebrar, muito por lutar

Celebrado ontem, 11 de outubro, o dia Mundial da Rapariga. Devia ser um dia festivo, mas para nós que trabalhamos em defesa dos direitos das raparigas, sabemos que não. É na verdade um dia de afirmação da luta. Luta pela igualdade de género. Não tem como celebrar de forma plena, enquanto que uma em cada 14 raparigas sofre violação sexual no mundo. A África Subsaahariana regista cerca de 21% de violações. A sociedade não respeita as mulheres. Estas estão em constante situação de vulnerabilidade. O assédio é uma realidade. Assediadas no espaço familiar, na escola pelo colega que toca no nosso corpo sem autorização, o professor que chega até a chantageiar para passar de classe, na igreja não é diferente, o desconhecido da rua se sente autorizado em tocar na mulher, em classificar e desqualificar o seu corpo, em ditar regras de como vestir. Ser mulher, rapariga, é viver em constante situações de abuso.

Tenho outro dado a informar. É sobre os casamentos prematuros. Moçambique apresenta índices de prevalência de casamentos prematuros acima dos restantes países da África Austral e Oriental, ficando apenas atrás do Malawi. Para a faixa etária abaixo dos 15 anos, Moçambique tem a prevalência de 14% contra os 13 e 10% da África Subsaariana, e da África Austral e Oriental combinados.De acordo com os dados do Inquérito Demográfico e de Saúde de 2011, 48.2% de mulheres com a idade entre os 20-24 anos casou-se antes dos 18 anos e 14.3% antes de atingir os 15 anos. As taxas de casamentos prematuros são mais altas no centro e norte do país.

Queremos poder celebrar. Mas não conseguimos plenamente. Escutem os índices das gravidezes precoces, são assustadores: Em 2011, mais de 42% das jovens moçambicanas declararam ter tido um filho antes dos 18 anos e cerca de 8% antes dos 15 anos. De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a População, a manter-se a actual prevalência de gravidezes prematuras, o país terá cerca de 730 mil raparigas mães, menores de 18 anos, em 2030. Não temos como celebrar plenamente.

Assim como acontece em relação aos casamentos prematuros, que afectam maioritariamente as mulheres, ter filhos precocemente é também um fardo social que recai com maior intensidade sobre as raparigas do que sobre os rapazes. Dados indicam que 40,2% de raparigas são mães antes dos 18 anos, comparativamente a apenas 3,8% de rapazes, dos quais nenhum reportou ter sido pai antes dos 15 anos.

Esses dados são indicativos de que a desigualdade de género é um facto. A forma como a sociedade lida com homens é bastante assimétrica com a forma como lida com as mulheres. As meninas nascem para o cuidado, o zelo, para carregar fardos, delas, como mulheres, e dos homens. A responsabilidade pela família, pela sociedade, é sobrecaregada as mulheres. Mas perguntem-me sobre os privilégios. São todos masculinos.

Esse quadro precisa mudar. A forma como as relações, expectativas entre mulheres e homens estão estruturadas, estão de todo erradas. Temos a responsabilidade de construir uma nova sociedade. Uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas, independetemente do sexo, género, raça, tribo, nação.

Que isso não seja apenas uma recomendação do direito, mas que seja facto. Tornar isso um facto precisa de esforços colectivos, desde a forma como educamos homens e mulheres no espaço familiar, no religioso, na comunidade. Na forma como desenhamos e orientamos as políticas públicas. Entendamos e reconheçamos que existe toda uma história de reelegação das mulheres ao segundo plano. As mulheres conhecem a invisibilidade, as mulheres sabem o que é o desmérito mesmo tendo mérito. Quando as mulheres dizem, este mundo é patriarcal, machista, misógino, sabem o que dizem. Ao invés de pegarem escudos protectores, ou de simplesmente taparem os ouvidos, escutem as mulheres, escutem as suas demandas. Dialoguemos. Aprendamos. Construamos colectivamente.

Homens, o machismo é muito problema nosso. Se não é, só, nosso, então, nos beneficia bastante. Passou da hora de nos revermos. É fundamental que reflictamos. O que somos hoje, é o que nos foi ensinado e imposto. O que seremos da que em diante, é da responsabilidade de cada um. Aceitemos mudanças. Meninas, denunciem abusos, digam não a casamentos prematuros e gravidezes precoces. Estudem. Sonhem, o vosso futuro, depende, também de vocês. Mulheres, não continuem em relacionamentos abusivos. E como diz a Nina Simone, aprenda a se retirar da mesa quando o amor não é mais servido. Conquistem os vossos lugares nessa sociedade. Não é fácil. A maré é desfavorável, continue-se a remar. O século 21, é século de novas páginas.

Governantes, proporcionem uma atmosfera política e legal que seja favorável a defesa e proteção dos direitos das raparigas. Sociedade civil, continue denunciando e fortalecendo programas de emancipação da rapariga. Mulheres e meninas. Gritemos, nenhuma a menos. Lutemos até que todas sejamos livres.

Sim, vocês podem.


Ps: Mensagem do evento alusivo ao dia da rapariga em Nampula, realizado pela Rede Hopem em parceria com a Plan International.
imagem encontrada aqui
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