Precisamos falar do assédio no Ensino Superior

Se aproxima o dia mundial da rapariga, 11 de Outubro. Estou no processo de organização de actividades alusivas ao dia. As mesmas envolverão estudantes do ensino secundário e universitário. Ao convidar as universitárias, pretende-se que, dentro da mítica do ensino superior, estas inspirem as meninas do ensino secundário. Falem das suas trajectórias até a entrada na universidade.

Desloquei-me a uma universidade pública. Precisava encontrar estudantes universitárias que estivessem dispostas a fazer esse trabalho. Encontrei as primeiras três que ficaram entusiasmadas. Continuei buscando por outras. Precisava de cursos diferentes para que fossem múltiplas inspirações e aspirações. Aproximo-me a ela, pergunto sobre o curso, apresento a proposta. Desenvolvemos conversas. Fico impactado. As paredes universitárias que muitos almejamos fazer parte, são espaço de violência sistemática contra as mulheres. Essas infraestruturas adoecem, não somente pelas actividades, mas pela forma como o machismo com todos os seus aliados a constitui.

Há muita mulher que vê os seus sonhos sendo transformados em pó na universidade. Algumas sobrevivem e se erguem, outras simplesmente não conseguem, desistem da universidade ou mesmo de si.


“Eu quero ir para esse evento”, disse-me a universitária. Eu preciso fortalecer essas meninas. Preciso lhes ensinar resiliência, eu sou resiliência, por isso posso ensinar. Eu estou aqui na universidade, mas talvez não estaria mais. Graças a Deus que não me deixou materializar nenhum dos meus pensamentos negativos. Eu sofri muito assédio. Até hoje tenho marcas desses momentos. Me fechei demais, percebo que há muito de mim que se foi. Tive muita vergonha de mim, me culpei bastante. Meus colegas me disseram que os professores me assediavam porque eu era muito aberta, o que de certa forma indicava que eu estava a fim deles. Mulher que sorri com todos é mulher fácil, infelizmente, é assim no imaginário de muitos homens.

Um dos professores me convidou a ser parte de um projecto que traria rendimento financeiro para mim, eu precisava desse valor, sou de uma família pobre e estou distante dela. Um dia esse professor convidou-me para a sua casa. Fui. Era no âmbito dos trabalhos. Eu estava tranquila com isso. Minutos depois começou a me tocar, recusei, ele forçou, recusei. Sem a minha autorização ele foi se apropriando do meu corpo. Eu disse que não queria isso. Ele parou. Eu estava com tanto medo, éramos apenas nós. Eu tive medo que ele me violasse. Aonde eu recorreria. O que eu ia fazer, sozinha, em casa de um homem? Não seria a pergunta? Não diriam que fui porque queria?

Ele não me violou. Mas aquilo me marcou. E teve outras consequências.

Por não ter favorecido sexualmente o professor, fui desligada do projecto. Foi uma situação muito dificil, eu precisava de estar no projecto, eu precisava do dinheiro, eu tinha necessidades. É duro perceber esse nível de objectificação do meu corpo. Quantos sonhos das mulheres tem sido paralizados, simplesmente, porque não foram ao encontro dos desejos masculinos?

Havia, um outro, professor que me fazia convites contínuos para sair para os restaurantes, praias, hóteis. Eu dizia não, parava por um tempo e retomava. Eram pessoas com poder. Que tinham as chaves para a minha estagnação ou continuação. É muito sofredor se ver nessa situação. Tudo isso me desestabilizou. Me tornei menos confiante em mim, toda a autoestima se foi, meu aproveitamento baixou, entrei em depressão, pensei em parar de estudar, pensei em tirar a minha vida. Foram momentos muito dificeis. Meus pais distantes, eu aqui sozinha, foi duro demais. Mas consegui estar aqui até hoje. Mas as marcas ficaram. Percebo o quão me distanciei das pessoas. Mas não consigo ser mais do que isso.

Sabe, na escola secundária o professor chantageia a menina em termos de reprovação de forma a obter favores sexuais. Na universidade pode ser assim, como não. Em faculdades onde existem projectos contínuos a serem desenvolvidos pelos professores e estudantes, a moça que não aceita se envolver com os professores, simplesmente não será enquadrada. Geralmente a moça é enquadrada para estar mais próxima e facilita as investidas do professor, quando não resulta, é desenquadrada. Na universidade existe assédio. Eu resisti. Mas nem todas conseguem. Não é fácil, é destruidor.

Eu quero ir falar com as estudantes. Mas não sei, não tenho marcas bonitas da universidade. Essas paredes tem muitos sofrimentos. Mas irei, preciso incentivar as meninas a estudarem para serem autônomas. Mas a autonomia passa muitas vezes pelas mãos dos homens. Não é fácil.

Precisamos falar de assédio nas universidades.

 

*Depoimento feito com a autorização da estudante mediante o anonimato.

 

ilustração encontrada aqui
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